Em conversa sobre coragem, vulnerabilidade e comunicação, o surfista de ondas gigantes Carlos Burle mostra por que, diante do imprevisível, não existe atalho para o treino
Logo que o Google Meet é ligado, não parece que estamos diante de um sujeito que se joga em ondas com tamanho equivalente a prédios de 10 andares (sim, 10 andares). “95% é treino, 5% é coragem”, diz ele. De fato, não podemos negar que coragem é um dos atributos que todo surfista carrega um pouco. Seja a coragem de apostar em um esporte menos convencional como meio de vida profissional, seja a coragem de pegar ondas de 30 metros.
Era mais ou menos 15h10 quando Carlos Burle apareceu do outro lado da tela. Camisa preta, fones do seu famoso patrocinador e uma calma inspiradora. Burle é, antes de mais nada, um bom ouvinte. Parece que cumpre todos aqueles requisitos que temos na cabeça de um surfista gente boa: riso fácil, uma certa timidez e uma paz nas palavras que faz você ficar ouvindo o cara falar por horas sem perceber.
“Nossos desafios não fogem muito dos desafios que vivemos milhares de anos atrás. A gente vai continuar tendo medo, insegurança, vai continuar querendo controlar, mas o universo tem a forma dele de evolução”, lembra Burle.
Na prática, fica fácil entender como ele consegue traduzir os desafios de atleta para o mundo corporativo. Toda essa jornada não-linear e praticamente incontrolável é algo que vivemos todos os dias, seja na vida, seja nas reuniões profissionais.
Mas depois de uma pergunta tão ampla, ele também lembrou que há uma saída pra isso tudo, ou pelo menos uma forma de lidar. E que parece mais simples e funcional do que qualquer fórmula perfeita: treinar.
É curioso ouvir isso num momento em que quase tudo ao nosso redor parece caminhar na direção contrária. Quando a conversa chega à inteligência artificial, falamos justamente sobre a quantidade de processos que começamos a encurtar. A resposta aparece antes da dúvida terminar. O texto sai pronto antes da primeira tentativa ruim. A ferramenta corrige em segundos e sugere caminhos numa velocidade que o corpo, felizmente, ainda não aprendeu a acompanhar.
Burle escuta e volta ao treino. Para ele, existe alguma coisa no erro que não pode ser pulada com tanta facilidade. Parte do aprendizado acontece justamente quando a tentativa não funciona, quando é preciso repetir um movimento ou permanecer um pouco mais naquele lugar em que ainda não se sabe muito bem o que fazer.
No surfe de ondas grandes, essa relação é bastante literal. Você pode estudar o mar durante anos e preparar o corpo. Pode conhecer cada procedimento de segurança. A onda seguinte continua sendo uma onda que você nunca pegou.

É por isso que uma palavra apareceu tantas vezes em sua fala: vulnerabilidade. Burle conta que ambientes hostis têm a capacidade pouco gentil de lembrar que controle é uma ideia bastante relativa. Diante de uma montanha ou de um mar grande, não existe muita margem para fingir domínio. É preciso reconhecer limites e confiar em outras pessoas. Também aceitar que alguma coisa pode sair diferente do planejado.
A mesma lógica apareceu quando ele falou sobre comunicação. Hoje, diante de uma câmera, Burle parece confortável. Nem sempre foi assim. Na juventude, diz ter sido bastante inibido. As viagens o colocaram diante de atletas de outros países. Os patrocinadores exigiram outra forma de se apresentar.
Comunicação, nesse caso, também foi exposição. Veio com desconforto e repetição. É aquela reunião que você se prepara por semanas a fio, mas que pode te surpreender a qualquer momento. Estar vulnerável é, por mais paradoxal que possa parecer, estar preparado.
Em algum momento do papo, a inteligência artificial volta à mesa como uma ferramenta capaz de produzir uma sensação perigosa de instantaneidade. A questão que fica é o que fazemos com o tempo que ela economiza. Burle parece menos interessado na resposta pronta do que na qualidade da pergunta seguinte. Uma mente curiosa, diz ele, deveria usar a tecnologia para aprofundar um questionamento, sem encerrar o assunto rápido demais.
Perto do fim, a gente resume parte dessa lógica numa frase que foi título de um painel que Burle participou no Rio Innovation Week ao lado de Carol Barcellos e Bob Burnquist: “o impossível é um lugar que se treina”. A palavra impossível, para Burle, costuma designar aquilo que ainda não foi suficientemente conhecido. Ou seja, é possível conhecer o impossível.
Quando a chamada termina, a frase dos primeiros minutos fica ainda mais clara. Os 95% de treino parecem menos uma conta exata e mais uma forma de organizar a própria trajetória. Para alguém que passou boa parte da vida diante de coisas que não controla, repetir continua sendo uma maneira bastante concreta de se preparar para o que vem depois.